terça-feira, 29 de outubro de 2013

PAUL E MARRIE - CAP 1: A SOLUÇÃO DE MEUS PROBLEMAS



Só de pensar em começar a contar a minha história, incorporo-me de uma alegria absurda, e ao mesmo tempo de uma vergonha de igual tamanho. Porque esta, meu caro leitor, esta não é uma história de amor. Ou pelo menos, nunca estivera em meus planos que aquilo que estaria por viver um dia tornaria-se amor.
Mas o fenômeno da vida nada mais é que enviar-nos problemas que passamos a maior parte de nossos anos tentando resolvê-los, até o grande dia em que descobrimos que estes mesmos óbices é o que farão de nossa história algo que se possa chamar de belo.

E esta história se inicia com um problema. Eu, Paul, 30 anos atrás, era um médico bem-sucedido, professor da Universidade mais famosa do país, e nas horas vagas atendia a população carente de minha cidade, sem cobrar um tostão. Era alto, bem-humorado, e escondia atrás de meus redondos e dourados óculos, olhos azuis tão claros que se encaixavam perfeitamente com o meu apelido: "Doutor-Anjo".

Entretanto, no mesmo corpo que encarnava o "Doutor-Anjo", morava ali também um pecador. Pois no primeiro ano em que entrara no hospital, eu conhecera David, o meu professor residente, e fizera dele o meu amor.

Não se enganem aqueles que acharem que o meu pecado era relacionar-me com outro homem, pois nunca consegui enxergar maldade no amor de um humano para outro humano. Meu pecado era a vontade obscura e insaciável de acabar com a família que David lutava para manter e tê-lo por inteiro comigo.

David era casado, tinha dois filhos, e o relacionamento extraconjugal que tinha comigo era completamente escondido, como qualquer pessoa de moral inabalável na época o faria.

Entretanto, eu, que me considerava sempre tão à frente de meu tempo, já estava cansado de me esconder em um flat alugado e queria poder viver meu amor abertamente. E em paz.

Após inúmeras discussões a respeito de nosso futuro, David me propusera algo que seria a solução momentânea de nossos conflitos: arrumaria eu, uma companheira, uma namorada, para que todos continuassem acreditando em nossas opções sexuais, até que chegasse a hora certa de David se divorciar e enfim pudéssemos viver o nosso grande amor, sem mais segredos.

Mal sabia eu que aquele homem já havia articulado tudo, que não queria ele um breve tempo, e sim apenas mais duas personagens para participarem de sua peça de teatro, a qual atuava diariamente e intitulava como "Vida".

Contudo, se não fosse por David e suas mentiras, e suas propostas, e suas horas sempre tão contadas para me ver, eu jamais teria entrado novamente naquele bordel, não em busca de uma namorada de mentira. E jamais teria conhecido Marrie.

Fizera uma promessa a mim mesmo que não enganaria mais mulher alguma. Que não fingiria estar apaixonado, não mandaria flores com cartões falsos, e não usaria mais palavras de afeto em vão.
Por isso escolhera um bordel. Porque ali encontraria o que iria resolver momentaneamente os meus problemas: alguém que pudesse pagar, que pudesse dividir os meus segredos e não precisasse ouvir os seus, e, acima de tudo, alguém que estaria disposta a fingir comigo.

Cheguei à porta daquele recinto em ruínas pontualmente às duas horas da tarde. Nunca fora um homem de atrasos. Fora recebido pelo dono do lugar, um sujeito sério, de meia idade, mas que aparentava muito mais devido aos excessos cometidos durante a vida, julgava eu. Aquele homem me devia um favor.
Há dois anos, uma de suas "funcionárias" abordara-me na porta do hospital, quando já estava de saída, dizendo ter uma emergência que não poderia ser tratada em uma ala médica. Por um instante, senti um certo pavor ao pensar o que poderia ser aquela emergência, mas segui a passos largos aquela senhora, pois um médico jamais poderia negar atendimento a quem lhe procurasse.

Entrei pela mesma porta que estava prestes a entrar naquele dia, e logo ao adentrar-me no saguão principal, deparei-me com aquele homem deitado sobre uma mesa, agonizando de dor.

Mr. Richard, como assim o chamavam, levara dois tiros em seu abdômen e precisava ser urgentemente operado. Ao ver aquela situação, pensei em dizer que seria impossível fazer qualquer procedimento ali, naquelas condições e sem nenhum suporte médico.

Todavia, ao olhar em volta da mesa, vi que dois enormes homens vigiavam o seu possível chefe segurando armas em suas mãos. Entendi que se tentasse fugir dali, deitaria-me também em uma mesa e me agonizaria de dor, sem um médico para curar nós dois.

Nunca entrara em um bordel antes. Havia inúmeras mulheres me observando, muitas delas com feridas visíveis em seus corpos, outras maquiadas e bem arrumadas, mas todas impregnadas pelo cheiro daquele lugar.

Percebi também que naquela  mesa havia alguns instrumentos médicos, que me neguei a perguntar de onde teriam vindo. Apenas respirei fundo, e o operei. Sem luvas, sem higienização alguma, e com uma arma apontada em minha cabeça, eu o operei.

Eu o operei, e só Deus, Pai-Criador que na época negava a existência, sabe como aquele homem sobreviveu àquele dia. Antes de ser operado, agradeceu-me pela ajuda e me prometera que estaria ao meu dispor quando um dia precisasse.

Após sair daquele bordel, vomitei de medo na porta do lugar e fui embora com o intuito de nunca mais voltar.

E ali estava eu novamente, sentindo aquele cheiro insuportável e contando minha situação a Mr. Richard para que ele me ajudasse.

Mr. Richard em momento algum me julgou, ou fez qualquer expressão que desaprovasse a minha opção sexual. Apenas me ouviu atentamente e disse que possuía a pessoa perfeita para ser minha namorada.
Chamava-se Marrie, tinha 24 anos e há 8 trabalhava para ele. Era responsável, confiável, e, o mais importante, ninguém nunca vira o seu rosto. Desde quando chegara, havia uma tela que cobria seu rosto e só atendia seus clientes se assim permanecesse.

Perguntei o motivo do rosto coberto, mas Mr. Richard disse que isso era algo que devia perguntar a ela.
E foi então que Marrie entrou na sala. Era uma pequena e magra mulher, e de tão delicada se assemelhava a uma dama, e não a uma prostituta.

Era ruiva, de pele clara e cheia de cicatrizes pelo corpo, e como médico, não precisaria perguntar àquela mulher o que acontecera em seu rosto, pois ao vê-la, tinha certeza que acabara de passar por uma cirurgia de reconstrução de face. E mesmo com uma expressão de sofrimento, era inegável a beleza daquela pequena mulher.

- Boa tarde, senhores. - disse Marrie, cabisbaixa, como se ainda possuísse vergonha de seu rosto. - Em que posso ajudá-lo, Mr. Richard?

Mr. Richard então explicou, de maneira nada sutil, que o "Doutor Anjo" era gay e precisava de uma namorada de mentira para se manter idôneo perante à sociedade.

Senti-me muito desconfortável com a maneira que ele me retratou, mas ao ouvir a resposta daquela pequena mulher, entendi que ela era diferente dele:

- "Doutor Anjo", e que tipo de personalidade gostaria que tivesse? Prometo não decepcionar você. - Marrie tinha a voz calma, mas decidida em entrar naquele jogo doentio.

- Nenhuma, pode ser você mesma, Marrie - ainda um pouco desconfortável, respondi com a voz engasgada. - Eu encontrarei algo em você para gostar.

- Um anjo doutor e uma prostituta. - brincou Marrie, sorrindo. - Aos olhos de Deus isso nunca poderia ser um milagre.

Mas foi. Esta foi a única vez que Marrie se enganou. O milagre acontecera ali, naquele dia, quando encontrei a solução de meus problemas. E que faria meu coração vibrar.

domingo, 27 de outubro de 2013

ABREVIATURA.

Venho em nome de todos os amantes que um dia se calaram na tentativa de preservar um grande amor. Em nome de todos aqueles que já fecharam os olhos por não quererem mais enxergar o que lhes aconteciam. Venho em nome daqueles que ainda ardem em paixão.

Porque também sou dessas, faço parte dessa espécie que não é humana, que é obra de homem, mas que acabou por tornar-se outra coisa: metade bicho, metade gente.

Como uma esfinge. Esfinge que é corpo de felino e cabeça de humano. Ou seria corpo de homem com quatro patas e cabeça de bicho que aprendeu a ser humano? Pouco importa...

O que importa é que esfinge sou. Sou uma estátua de areia no deserto, que ao deparar-se com aquele que iria adentrar-lhe, oferece-lhe uma charada.

Contudo, meu marujo, esta esfinge não lhe oferece charadas mais. Esta esfinge apenas lhe diz a súplica de alguém que transborda em amor:

"Decifra-me, ou ignoro-te." Ou abandono-te.

Ou faço qualquer coisa que me obrigue a afastar de ti. Sou esfinge e nasci enigma com um único anseio: o de ser decifrada.

Decifra-me, ou perde-me, pois decifrando-me saberás que o meu próximo silêncio será o meu adeus. Só decifrando-me será capaz de saber que todo olhar somado a um silêncio é um pedido de atenção.

Decifra-me por ser esta a única maneira de conhecer o meu melhor e então poderá recebê-lo. Vem me dar o seu melhor...

Decifra-me agora, marujo, porque não há mais tempo para delongas, não há mais espaço para "depois", já que estamos diante dele. Do "depois" que construímos.

Decifra-me ou então as mãos que hoje se seguram, se apertam, se entrelaçam, hão de se soltar para que novas mãos conheçam a textura de minha palma. O tamanho de meus dedos. A cor do meu esmalte.

"Decifra-me!" Suplico para que abrevie. Para que me abrevie. Em uma palavra, um gesto, uma recordação.

Salva-nos, marujo! Salva-nos antes que este barco afunde, ainda temos tanto a viajar...

Salva-nos com uma abreviatura. Com uma palavra. Transforma-nos em verdade. Abrevia aquilo que chamamos de "eu" e "você" e torna-o em "nós". Em "nós".

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ar e Risco.



E em meio a tantos experimentos, acabei encontrando algo melhor que a alquimia. Descobri no meio de tantos embaraços, tantos erros e tantas distrações, ali, bem escondida e reservada, a fórmula da vida. A fórmula-mãe, em formato de tsunami.

"Ar e risco". Aqui está o grande segredo.

Ar que é aquilo que sai de dentro, que é brisa e que é vendaval ao mesmo tempo, que pode ficar estagnado, mas que corre o mundo quando assim o desejo. Ar que não se vê, que só se sente, como se tivesse a forma de um sentimento. Ar este que está em minhas mãos.

E risco também. Risco que é o traço, o contorno, ambiguidade que faz a linha singular e contínua tornar-se infinito.

Risco e Ar são a junção que se transformam "No" momento. Em agora. Em tudo que possa passar despercebido, mas que decidi jamais deixar acontecer. Porque o momento do ar e do risco, do risco e do ar, é o momento do "é", é o inevitável momento que minha única opção é deixar-me ir.

É aquele momento que devo fechar meus olhos para sentir o ar que me engloba e então correr o risco.

Mas o que seria correr o risco? Traçar as linhas do meu destino ou deixar fluir como o ar? Correr um risco sobre um papel até que se torne algo humano ou deixar correr o risco de ser alguém que ainda não descobri o que é?

Porque cansei-me de limitações. E de interpretações.

Cansei-me dos traços contornados, da linha reta e finalizada. Estou exausta da brisa, e do marasmo que é viver à espera "Do" grande dia. Do dia de então ser.

E é por isso que enxerguei, de repente, a fórmula da onipotência. Do Ar, e do Risco. Pois quando junto estes, eu não mais "Ar" e "Risco".

Eu "ARRISCO".

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gêmeas.

  

(FOTO: http://www.flickr.com/photos/jorgenowell/6053895635/)

     
Eis o relato de alguém que não deve qualquer explicação.
De quem é uma página em branco, um clarão em forma de retângulo, pendido para existir...

É que, de repente, cansei de ser quem eu sou... E resolvi então ser a outra, que no final das contas, sempre fui eu mesma, o eu adormecido que não sabe se acorda, ou se vale a pena continuar sonhando.

Mas não posso continuar sonhando, porque sonhar é viver a vida da outra, e agora quero ser eu.

Eu que sou a outra da outra, mas que agora cansei de ser ela e vou ser a mim.

“Mim” que é tão pequena que custei a enxergar a possibilidade de um dia voltar a existir.  E então resolvi ser aquela que agora já deixei de ser, ou melhor, aquela que venho adormecendo aos poucos, assim como fiz comigo há tempos atrás, para que não sinta sua falta quando chegar a hora dela partir.

Pois o pequeno “mim” que encontrei, aquele pontinho de mim que acabei achando por um acaso dentro dela que então era eu, fora o suficiente para que a esperança brotasse em meu peito e me dissesse:

“Vai, vira tu agora uma página em branco, e deixa-se escrever...”

E é por isso que voltei a ser eu, o “eu” que é a “outra”, que é “mim” e que é eu também às vezes. Mas que sempre “É”.

Voltei porque o “eu” me chama e pede para estar aqui. Sem as devidas explicações. Mas para nunca deixar de ser... o que eu e ela somos juntas.